Sai correndo nua, na chuva. Estava desesperada. Os carros buzinavam quando passava, alguns homens gritavam: mulher nua! mulher nua!
Chovia muito. Tinha medo. Louca! Louca! , alguns bradavam.
Acordei, nesse dia, estupefata: tinham – não sei como – revelado meus pensamentos em filme fotográfico. Exibiram no cinema. Na primeira sessão da quarta-feira. Toda imprensa foi convidada. Muitas pessoas: crianças, namorados, velhos. Toda a gentalha da cidade. Todos me vendo por dentro.
As autoridades acharam nocivo expor a população ao meu mundo insalubre. Decidiram recolher o material. A NASA ficou muito interessada e quis testar o pensamento humano em extraterrestres. Mas a Rússia enviou um agente secreto que o roubou antes da experiência ser feita. E meus pensamentos viraram arma de guerra, disputas continentais, ideológicas, políticas.
Meus pensamentos se espalharam, se perderam por aí. Continuei correndo nua – na chuva. Até que uma ambulância parou na minha frente. Levem ela! Amarrem ela! Lugar de doido? É no hospício!
E a liberdade? Apenas um sonho, meus amigos.
quinta-feira, 9 de abril de 2009
quinta-feira, 19 de março de 2009
FANTASMAS
Os fantasmas são criaturas que pertencem ao imaginário infantil, mas não para mim.
Tenho convivido com esses seres, muito de perto. Eles me acompanham de forma insistente. Tento ignorá-los. Mas nem sempre é possível. Alguns fantasmas são admiravelmente inteligentes, astutos, maliciosos.
Quando menos espero, essas criaturas diáfanas aparecem e prendem minha atenção. De modo singular, sobrenatural. Inicialmente, sinto-me atraída por suas estratégias de encanto. E deixo-me levar até ver encarar o seu rosto frio. E sentir medo. Pavor.
Os fantasmas. Meus fiéis companheiros. Em alguns momentos parecem adormecidos, mas eu sei que eles estão aqui. Todos dentro de mim. Nas minhas fantasias, perturbando a minha realidade.
Tenho convivido com esses seres, muito de perto. Eles me acompanham de forma insistente. Tento ignorá-los. Mas nem sempre é possível. Alguns fantasmas são admiravelmente inteligentes, astutos, maliciosos.
Quando menos espero, essas criaturas diáfanas aparecem e prendem minha atenção. De modo singular, sobrenatural. Inicialmente, sinto-me atraída por suas estratégias de encanto. E deixo-me levar até ver encarar o seu rosto frio. E sentir medo. Pavor.
Os fantasmas. Meus fiéis companheiros. Em alguns momentos parecem adormecidos, mas eu sei que eles estão aqui. Todos dentro de mim. Nas minhas fantasias, perturbando a minha realidade.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
ANTÔNIO.
É num dia como esses que me lembro do Antônio. E curiosamente lembrei de um fato que ocorreu faz dois anos. Antônio estava entediado com a vida, mas principalmente com o seu trabalho. Um lugarzinho medíocre, repleto de pessoas medíocres, fazendo coisas – não por acaso – medíocres. Gentinha rasteira, infeliz.
Antônio era um homem simples, muito sensível, próximo das artes nobres. Mas a objetividade da vida o obrigou a trabalhar em um lugar qualquer para ganhar um dinheirinho, com dizia sua mãe. Dinheirinho ordinário que custava a paciência do meu amigo.
Só o tesão que sentia pelas coxas de Lúcia melhorava o seu dia. Lúcia e Antônio estavam namorando há um ano. Ela era cabeleireira, mas queria ser atriz e não era exatamente bonita. Mas Antônio adorava suas coxas e também o jeito como mexia a boca, quando falava. Outra coisa que o fazia feliz eram as poesias de Mário de Sá Carneiro. Antônio sabia todas e costumava declamar em voz alta, sozinho, no seu quarto.
Um dia ele chegou no limite e decidiu não ir trabalhar. Que se dane o filho da puta, pensou. E saiu com o seu fusca velho, enferrujado. Soube que levou algumas roupas, livros, discos de Beethoven. E Lúcia, é claro.
Antes de ir embora ele deixou uma carta aqui em casa, contando tudo isso. Nunca mais tive notícias dele. Quem sabe um dia mande um telegrama. Espero que esteja tudo em ordem. Ele merece.
Antônio era um homem simples, muito sensível, próximo das artes nobres. Mas a objetividade da vida o obrigou a trabalhar em um lugar qualquer para ganhar um dinheirinho, com dizia sua mãe. Dinheirinho ordinário que custava a paciência do meu amigo.
Só o tesão que sentia pelas coxas de Lúcia melhorava o seu dia. Lúcia e Antônio estavam namorando há um ano. Ela era cabeleireira, mas queria ser atriz e não era exatamente bonita. Mas Antônio adorava suas coxas e também o jeito como mexia a boca, quando falava. Outra coisa que o fazia feliz eram as poesias de Mário de Sá Carneiro. Antônio sabia todas e costumava declamar em voz alta, sozinho, no seu quarto.
Um dia ele chegou no limite e decidiu não ir trabalhar. Que se dane o filho da puta, pensou. E saiu com o seu fusca velho, enferrujado. Soube que levou algumas roupas, livros, discos de Beethoven. E Lúcia, é claro.
Antes de ir embora ele deixou uma carta aqui em casa, contando tudo isso. Nunca mais tive notícias dele. Quem sabe um dia mande um telegrama. Espero que esteja tudo em ordem. Ele merece.
domingo, 22 de junho de 2008
BANDEIRA
Ontem estava pensando sobre a festa de São João e me lembrei de um poema¹ escrito por Manuel bandeira. Um dos poetas que admiro pela vida e obra.
Manuel Bandeira descrevia uma noite de São João na poesia. Falava de pessoas queridas, das saudades que sentimos, quando as mesmas já não pertencem mais a este mundo. Personagens da infância, lembranças de uma noite de sonho e alegria. Momentos de doçura. Recordei, então, das minhas noites de São João. Fiquei feliz ao perceber que minha infância foi tão bonita como o poema.
Atualmente não comemoro a festa junina como antes, mas estou satisfeita com a memória do São João que vivi. Genuíno, puro e repleto de uma infância bem vivida. Manuel Bandeira, no entanto, não teve uma vida tão feliz. Perdeu família e a saúde, mas jamais a virtude de perceber, no mundo, saídas para a felicidade, para o bem viver.
Memórias da infância, São João e Manuel Bandeira. Excelente mistura para renovar a alma e entender que nem tudo está perdido. “Uns tomam éter, outros cocaína. Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.”²
_________________________________________
¹ O poema ao qual me refiro, chama-se Profundamente.
² Verso de Não Sei Dançar, uma poesia também escrita por Manuel Bandeira.
Abraços!
Manuel Bandeira descrevia uma noite de São João na poesia. Falava de pessoas queridas, das saudades que sentimos, quando as mesmas já não pertencem mais a este mundo. Personagens da infância, lembranças de uma noite de sonho e alegria. Momentos de doçura. Recordei, então, das minhas noites de São João. Fiquei feliz ao perceber que minha infância foi tão bonita como o poema.
Atualmente não comemoro a festa junina como antes, mas estou satisfeita com a memória do São João que vivi. Genuíno, puro e repleto de uma infância bem vivida. Manuel Bandeira, no entanto, não teve uma vida tão feliz. Perdeu família e a saúde, mas jamais a virtude de perceber, no mundo, saídas para a felicidade, para o bem viver.
Memórias da infância, São João e Manuel Bandeira. Excelente mistura para renovar a alma e entender que nem tudo está perdido. “Uns tomam éter, outros cocaína. Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.”²
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¹ O poema ao qual me refiro, chama-se Profundamente.
² Verso de Não Sei Dançar, uma poesia também escrita por Manuel Bandeira.
Abraços!
sexta-feira, 21 de março de 2008
FIM DE TARDE
Quando a tarde acaba e o céu tem uma cor indefinida, penso um pouco sobre a vida e muito sobre a morte. Imagino que tenho pouco tempo e muitas coisas a serem feitas, coisas que na maioria das vezes não servem para nada.
A construção humana do mundo é estúpida. Uma corrida por metas vazias, frágeis, instáveis. A maioria dos humanos não percebe sua própria instabilidade. E nada mudará isso, nem a fortuna, nem a glória, muito menos os títulos...
Acredito na lucidez, na calma estóica e na sinceridade furiosa diante do espanto de existir... Isso, sim, é saber viver. Sem métodos, manuais da vida, essas coisas que só os bobos sabem usar.
Nessa vida fugidia, resta a mim, saudar os amigos sinceros, poucos e raros, minha família, os filmes de Bergman, as músicas de Agustín Barrios, a lua, o sol, os girassóis... E a poesia.
Abraços!
A construção humana do mundo é estúpida. Uma corrida por metas vazias, frágeis, instáveis. A maioria dos humanos não percebe sua própria instabilidade. E nada mudará isso, nem a fortuna, nem a glória, muito menos os títulos...
Acredito na lucidez, na calma estóica e na sinceridade furiosa diante do espanto de existir... Isso, sim, é saber viver. Sem métodos, manuais da vida, essas coisas que só os bobos sabem usar.
Nessa vida fugidia, resta a mim, saudar os amigos sinceros, poucos e raros, minha família, os filmes de Bergman, as músicas de Agustín Barrios, a lua, o sol, os girassóis... E a poesia.
Abraços!
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
PANELAS
Nunca imaginei que cozinhar me traria tanto prazer. Na verdade, sempre evitei assuntos culinários, panelas, medidas e receitas. A descoberta não foi planejada, muito pelo contrário, aconteceu de repente. Como um súbito desejo de dar sabor à vida.
Com o fim da faculdade entendi finalmente minha condição de adulta, e que já se fazia necessário interpretar alguns papéis na minha carreira de ser humano. Mas toda essa novidade apareceu sem pesar. Assim como adicionar um novo ingrediente à imaginação, descobrir uma nova receita para existir.
Sem falsa modéstia, estou indo muito bem na cozinha. Uma grande surpresa, principalmente, porque não esperava tamanho sucesso. Agora coleciono receitas. Experimento condimentos e ervas. E minha maior expectativa do dia é saber se os meus convivas ficaram satisfeitos com minhas criações nutritivas...
A felicidade, talvez seja uma idéia de sentir que inventaram. Mas acredito que o que estou vivendo, neste momento, é num sentimento que também pode ser sensação. Uma coisa parecida com tranqüilidade e lucidez,... um estado de ser que não fere nem agita a alma. Uma postura quase estóica. Desejo de não esperar da vida nada, além do gosto da realidade.
Abraços!
Com o fim da faculdade entendi finalmente minha condição de adulta, e que já se fazia necessário interpretar alguns papéis na minha carreira de ser humano. Mas toda essa novidade apareceu sem pesar. Assim como adicionar um novo ingrediente à imaginação, descobrir uma nova receita para existir.
Sem falsa modéstia, estou indo muito bem na cozinha. Uma grande surpresa, principalmente, porque não esperava tamanho sucesso. Agora coleciono receitas. Experimento condimentos e ervas. E minha maior expectativa do dia é saber se os meus convivas ficaram satisfeitos com minhas criações nutritivas...
A felicidade, talvez seja uma idéia de sentir que inventaram. Mas acredito que o que estou vivendo, neste momento, é num sentimento que também pode ser sensação. Uma coisa parecida com tranqüilidade e lucidez,... um estado de ser que não fere nem agita a alma. Uma postura quase estóica. Desejo de não esperar da vida nada, além do gosto da realidade.
Abraços!
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
UM PRAZER
Relendo estes textos do BLOG tive uma sensação de desagrado. O material postado me pareceu demasiadamente piegas e, Inicialmente, quis excluir todo o conteúdo do documento virtual.
Mas apagar o diário eletrônico não seria a solução. Afinal, os textos aqui publicados fazem parte de mim. Em algum momento, daquilo que pensei ser realidade, me descreveram. Ainda que de uma forma difusa.
Na verdade, a minha reflexão em relação ao BLOG revela um pouco ou tudo sobre minha maneira de ser. Um conjunto de características que não me fazem popular e, às vezes, nada simpática.
Contudo, sou feliz por minhas peculiaridades e postura diante das coisas reais ou irreais. Tenho uma satisfação especial com meus prazeres e predileções. Saber quem eu sou e desfrutar disto é uma das minhas experiências estéticas preferidas.
Mas apagar o diário eletrônico não seria a solução. Afinal, os textos aqui publicados fazem parte de mim. Em algum momento, daquilo que pensei ser realidade, me descreveram. Ainda que de uma forma difusa.
Na verdade, a minha reflexão em relação ao BLOG revela um pouco ou tudo sobre minha maneira de ser. Um conjunto de características que não me fazem popular e, às vezes, nada simpática.
Contudo, sou feliz por minhas peculiaridades e postura diante das coisas reais ou irreais. Tenho uma satisfação especial com meus prazeres e predileções. Saber quem eu sou e desfrutar disto é uma das minhas experiências estéticas preferidas.
Abraços!
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